Mugnaini: Reflexões sobre Cannes e a internet BR

Sergio Mugnaini, diretor de criação da Almap, está em Cannes e me mandou este texto com suas reflexões sobre o festival e o papel dos prêmios no desenvolvimento do mercado de internet brasileiro:

O Mercado virtual?

Acabei de ver alguns comentários sobre a premiação em Cannes e queria discutir alguns pontos. O primeiro deles que esse texto é um comentário que não diz respeito à agência na qual eu trabalho, mas sim de uma visão mais generalizada de até onde queremos chegar com a internet no Brasil.

Até onde o Festival de Cannes vai ser usado para lançar e promover pessoas e agências ao invés de reconhecer os melhores trabalhos? Até onde cyber será responsável por mudar uma percepção inteira de um mercado, mesmo ela sendo ilusória? Acho que está mais do que na hora do Brasil abandonar essa estratégia e alinhar um discurso de só pensar de uma maneira: de fazer um trabalho consistente, trabalho de verdade que apareça de uma forma relevante no cenário mundial. Trabalho que os suecos fazem, por exemplo: eles criaram uma verdadeira escola de como fazer algo de verdade e brilhante. De ver a Crispin e a Goodby inovarem a cada campanha e querer descobrir como eles conseguem fazer aquilo? De mostrar que não se ensina internet transformando uma equipe inteira de offline em “criadores” de peças online de uma hora para a outra. As pessoas devem aprender na prática do dia-a-dia dos jobs, integrando os departamentos e enriquecendo os negócios de seus clientes.

Acredito que a categoria de Cyber é muito maior do que isso e tenho certeza que algumas agências e profissionais do Brasil também compartilham esse pensamento. Compartilham que a internet brasileira tem um futuro brilhante, verdade essa dita por alguns jurados internacionais que conversei por aqui.

O que realmente falta no Brasil é fazer com que as pessoas que trabalham com internet percebam a real necessidade de reavaliar alguns pontos, alguns conceitos e recomeçar um trabalho muito bem embasado para que daqui a alguns anos, tenhamos uma boa base para trabalhar. E uma base dessa não é montada de um dia para o outro.

Precisamos pensar em construir um mercado que faca com que aqueles dois brasileiros que ganharam o Young Creatives tenham orgulho de trabalhar, em um país aonde o trabalho é realmente respeitado. Assim, eles não precisariam depender do sonho de sair do país para ter um verdadeiro trabalho.

Vamos encarar a internet de uma forma séria, de uma forma verdadeira? Seria fabuloso que todos vocês pudessem fazer comentários e críticas a respeito desse assunto para que o país volte a ganhar o prestígio que tivemos um dia. Esse é o lugar do Brasil e devemos tomar um certa cautela em apoiar atitudes não pensadas por algumas pessoas desse meio.

Se isso não acontecer, o Brasil só tem a perder. Perde profissionais por não acreditar que podem fazer um trabalho consistente. Perde clientes porque eles não vivem de prêmios - vivem de produtos, vendas, serviços. O Brasil sai perdendo com tudo isso e só resta uma saída: cada um parar e pensar no que podemos fazer para mudar esse cenário e tentar reverter essa imagem desgastada de um país que, a cada ano que passa, perde mais credibilidade no nosso meio.

9 comentários ↓

#1 Camilo on 06.21.07 at 12:35 pm

“Até onde o Festival de Cannes vai ser usado para lançar e promover pessoas e agências ao invés de reconhecer os melhores trabalhos?”

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Não imaginava que era assim…
Partindo disso que ele falou, foi totalmente coerente, me fez refletir sobre meu trabalho.

#2 Daniel Filho on 06.21.07 at 1:48 pm

Eu sei que não tem mta relação com este assunto, mas quando avistei esse software imaginei que você iria gostar: http://www.fring.com/

Abraço

#3 Leonardo Giannetti on 06.21.07 at 2:01 pm

É, o contrastante mundo daqueles que buscam um mercado melhor e os que fazem dele um jogo para proveito próprio.

Parabéns Serginho. Já tinha lido sua coluna no CCSP e assino embaixo. Esse festival e atitude de alguns prejudicou como nunca nosso trabalho. Pena.

#4 Raquel Maia on 06.21.07 at 2:09 pm

Michel, a iniciativa de publicar em seu blog reflexões como essa, merece nosso reconhecimento. Finalmente alguém “de peso”, como o Sérgio, resolveu compartilhar esse pensamento com o mercado…

Imagino que, assim como eu, vários profissionais pensam dessa forma, no entanto, são reprimidos na maioria da vezes que opinam…pois como diria Matarazzo: ninguém dá a mínima para prêmios até ganhar um!
Quer verdade mais doída que essa, rss? Quem não gosta de ter seu ego massageado e seu trabalho reconhecido? Mas a questão é exatamente essa: até quando ficaremos escravos das premiações?

Adorei a discussão!
Parabéns Sérgio pelas reflexões e Michel pela disseminação das informações e pela luta por nossa web!

Abraços,
Raquel Maia

#5 Wagner Montes on 06.21.07 at 4:05 pm

Notei que nas últimas edições do Cyber, as agências brasileiras disputam apenas entre si e com criações exclusivas para o festival.
É de fato uma pena. Temos excelentes profissionais atuando no país, com condições de realizar grandiosos projetos e com isso, reassumir todo o respeito e credibilidade reconhecida no passado. A iniciativa do Sérgio de expor sua opinião sobre o assunto, funcionará como um fio condutor para que possamos nos questionar mais sobre onde queremos chegar.

#6 Nome importa? on 06.21.07 at 7:02 pm

O que falta no Brasil é honestidade. Em Cannes e no resto todo. Sobre ser escravo das premiações, não seremos mais escravos o dia em que não quisermos mais ser, pq quem faz o mundo somos nós.

#7 Gabriel Laet on 06.21.07 at 7:13 pm

O Brasil precisa de um mercado de Internet. Atualmente, é um mercado sustentado por agências de publicidade tradicionais. Falta mais seriedade e uma visão maior: parar de pensar em banners e hot-sites com sacadinhas, e começar a pensar em ações integradas, serviços agregados e sempre lembrar que a Internet é funcional e não um canvas em branco com arquivos de Flash com 15MB, esperando vídeo, 3D e ilustrações. Em 90% das agências brasileiras, os projetos são pensados para o mercado, e não para o cliente e para o usuário final. Palavra de quem já trabalhou em várias delas.

#8 Paulo Sena on 06.23.07 at 6:04 am

O QUE ELE ESTAVA FAZENDO EM CANNES ENTAO????????? Respeito muito o Sergio e a discussao toda. Mas isso e uma puta dor de cotovelo dele. Queria que alguem fizesse um levantamento de quantas pecas ele inscreveu nos ultimos quatro anos em Cannes. Se tivesse ganho nao teria escrito o artigo. E isso e feio. Muito feio. Vamos parar de reclamar. Da para fazer as duas coisas: entregar coisas incriveis para os clientes e ganhar premios. O QUE ELE ESTAVA FAZENDO EM CANNES ENTAO?????????

#9 Antonio Alves on 06.24.07 at 1:11 pm

Bom, amigos, o importante agora é pensar em Cannes 2008 e ir logo almoçar num bistrô, para nos sentirmos na França, pelo menos durante o almoço.

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