ViuIsso? Por Michel Lent

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O debate sobre jornalismo “tradicional” e blogs pegou fogo

Então, conforme planejado, estive ontem lá no pavilhão da Bienal no Ibipirapuera para conhecer tardiamente a Campus Party. Agradecimentos ao Guilherme Tsubota e à Karina Rehavia através de quem pude ter acesso ao evento.

Dei um passeio por lá e depois sentei para assistir a um debate que acabou virando “jornalismo tradicional” x “blogueiros” (assim, cheio de aspas mesmo, pois é tudo muito relativo).

Saí de lá com vontade de fazer um post contando as minhas impressões a respeito do debate e do Campus Party em geral. Hoje de manhã cheguei a escrever um texto longo, mas apaguei pois achei que teria pouco a acrescentar face ao tanto de conteúdo que já está sendo produzido por aí. Olhei o BlueBus, passei no Flickr, no Radinho. Em todos lugares, lá estavam, impressões e mais impressões em todos os formatos e sobre o evento. Pensei, “pra que mais uma?”.Pergunta esta que tem me rondado nos últimos meses ou até anos e que me fez decidir por desvirtuar (ou virtuar) o conteúdo do post sobre o CP para outro caminho.

Eu que sempre gostei de escrever artigos, discutir e debater de forma pública, tenho andado muito calado (para o meu normal) e não sabia bem por quê. Mas ontem, na frente do debate entre “jornalistas” e “blogueiros” (olha aí novamente as aspas porque é tudo mesmo muito relativo) e conversando com o René entendi melhor o seguinte: hoje em dia tem tanta coisa sendo dita (escrita, gravada, desenhada…) que o resultado disso, a somatória, quando botamos tudo junto, acaba se transormando num grande… ruído. Sabe quando misturamos todas as cores e a tinta vira marrom? Sabe quando tá todo mundo falando ao mesmo tempo e precisamos gritar para ouvir o que o outro tem a dizer? Pois é.

Entendi que no debate “J x B” do Campus Party, a discussão era exatamente essa. O que estava sendo discutido no fundo não eram modelos de trabalho, formatos ou plataformas. A discussão ali se resumia a como conseguir falar ainda mais alto e ser ouvido (veículos tradicionais que ainda falam pra muita gente x blogueiros em busca de mais espaço e importância). E daí entendi que era esse mesmo o motivo da minha falta de disposição para escrever ou produzir ainda mais conteúdo para jogar no mundo. Como ser escutado se há tanto barulho? Como fazer para ser azul e não virar marrom na hora em que todas as tintas se misturam…É claro que muita gente escreve pelo simples prazer de escrever, pelo exercício, para seu grupo de amigos/leitores e isso é totalmente satisfatório e relevante para eles. Eu faço isso com fotografia… mas o fato é que (e podem me chamem de dinossauro ou saudosista) eu venho de uma época na internet onde pouca gente ou praticamente ninguém publicava e que, o que a gente dizia dava pra ser escutado mas principalmente aproveitado de alguma forma pelos outros (fosse em forma de debate, ou simplesmente com um conselho a ser seguido pelos mais novos ou inexperientes).

Eu me pegava dizendo durante o debate para o René. “Sabe o que eu quero hoje em dia? Quero é ir para a imprensa tradicional e me manifestar lá”. Não porque a imprensa tradicional seja melhor ou mais importante. Simplesmente porque ela ainda fala mais alto em termos quantitativos. Se destaca no ruído e na mistura das cores.Mas daí isso me levou a pensar: “mas só através da imprensa tradicional é que eu vou ser escutado?”. De forma nenhuma. Nem eu nem ninguém. Coloque uma mensagem realmente relevante (no mais amplo sentido do que é ser relevante) em qualquer canto da internet e ela tem o potencial para se viralizar e ecoar de forma impressionante pela da Rede, fazendo com que essa mensagem seja escutada da forma mais alta e para mais gente do que qualquer veículo tradicional de massa jamais poderá sonhar em alcançar.

Então chegamos ao ponto central: a mensagem precisar ser relevante para ser realmente seja escutada. Ser escutada não porque falou mais alto, porque estava na imprensa tradicional, mas porque era algo relevante. Escrever, criar, se manifestar, apenas e quando eu sentir que tenho alguma coisa realmente relevante para dizer e não simplesmente para jogar mais vermelho no marrom, ou mais vozes no barulho.

Em 1996 eu escrevia artigos praticamente sozinho na internet brasileira e era ouvido, acredito, porque tinha coisas relevantes pra dizer, mas no mínimo porque ninguém mais o falava. Em 2008, o Campus Party reuniu fisicamente mais de 3 mil pessoas e os blogs brasileiros já passam das centenas de milhares.Nunca tivemos tanto poder de publicação e ao mesmo tempo, nunca tivemos tanto ruído. Como fazer para ser relevante e dizer coisas que realmente vão ser escutadas e aproveitadas? Eu tenho preferido me manter em silêncio. Salvo quando eu acho que tenho alguma coisa realmente relevante pra dizer. :)

Update: acompanhem aqui pelo “blog reactions” outras ótimas e “relevantes” reflexões sobre este tema.