Ainda sobre o assunto da relevância do que se produz na blogosfera brasileira hoje em dia, recomendo a leitura de mais um texto do Pedro Dória, a coluna “Navegar Impreciso” publicada hoje no caderno Link do Estadão. Como esta parte do conteúdo é fechada para assinantes tomei a liberdade de fazer um copy+paste no texto da coluna por julgar que ele é bastante relevante.
Nossa blogosfera é pouco ambiciosa
Pedro Doria*
Tem muito blog já no Brasil. Na semana passada, durante a Campus Party, chegou a circular pelos corredores do prédio da Bienal, no Ibirapuera, números fantásticos como este: 13,5% dos brasileiros online têm blogs. Desconhecendo os detalhes da pesquisa é difÃcil dizer se é certo. Mas a blogosfera brasileira é vasta. O que lhe falta é peso informativo.
Isso é curioso. Outros paÃses têm muitos blogs, como nós. O Irã, a Arábia Saudita, a China, a França, a Inglaterra, os EUA - são paÃses de todo tipo. Em todos, blogs fazem parte do cotidiano informativo dos internautas. Eles são uma fonte de informação imprescindÃvel. Em alguns casos mais importante até do que a imprensa tradicional.
É coisa que se vê tanto nos nichos quanto nos assuntos de interesse geral. Veja-se o caso da comunidade gay iraniana (aquela que o presidente Mahmoud Ahmadinejad disse que não existe). É perigosÃssimo ser gay no Irã. Não é comum que homossexuais sejam executados, mas ser preso é uma péssima idéia. É tortura certa. Mas eles se encontram, têm suas festas e a vida continua. Nesse ambiente, blogs são um dos instrumentos que facilitam a comunicação interna na comunidade. Ajudam na vida cotidiana. Informação tem esse valor: é ela que nos guia em nossos cotidianos.
Em grandes ditaduras, blogs são um importante instrumento de informação. Blogueiros, não à toa, são presos no Egito, na Arábia Saudita, na China - no próprio Irã.
Se blogs (ou a própria internet) tivessem surgido nos anos 1960, a nossa ditadura talvez não durasse tanto. Houve o tempo em que o brasileiro médio dava o maior valor para um instrumento assim poderoso de comunicação. Em 1968, quando a censura tomou de assalto as redações, blogs teriam condições de resistir. É fácil impedir que um, dois ou três jornais publiquem um determinado artigo. Jornal tem prédio e gráfica com endereços conhecidos. Mas, com tantos blogs em servidores espalhados pelo mundo, o controle total é impossÃvel.
Os EUA são um grande exemplo de paÃs democrático no qual blogs fazem parte ativa do diálogo nacional. Blogs são tão importantes que um blogueiro como Markos Moulitsas, do dailykos.com, é capaz de organizar um debate entre candidatos a presidente no qual todos consideram importante ir. PolÃticos sabem que boa parte dos eleitores se informam a respeito das eleições lendo blogs. Moulitsas jamais foi jornalista profissional, jamais passou por uma redação. Mas ele tem opiniões fortes e a habilidade de agregar uma comunidade de leitores e correspondentes. Além disso, ele pega o telefone e liga para um deputado quando quer informação. Moulitsas tem mais que opinião. Ele sabe o que está acontecendo nos corredores da polÃtica americana. E conta. Por isso, é lido.
Por que o Brasil não tem seu Markos Moulitsas? Nem todo blog precisa ser sobre polÃtica. Sequer precisam ser noticiosos. Blogs podem ser diários pessoais. Podem ser literários. Podem se limitar a um apanhado de opiniões. Mas surpreende que 13,5% dos brasileiros online tenham blogs e ninguém, fora jornalistas, ligue para um deputado e faça uma pergunta.
É particularmente grave que tenhamos uma blogosfera tão pouco ambiciosa. Que, em plena democracia, abra mão de ser tão importante quanto a imprensa tradicional. Talvez isso seja sintoma do desânimo que toma o paÃs. Mas é uma lástima.
Isso vai mudar. Em 2010, teremos uma eleição presidencial aberta. Ninguém sabe quem serão os candidatos e dois ou três deles terão chances reais de se mudar para o Alvorada. Que se espere uma campanha disputada. Não importa onde estejam, os candidatos serão cercados por celulares, câmeras digitais, filmadoras. Tudo o que falarem irá para a rede - e nem tudo virá pelas mãos de gente como nós, profissionais da imprensa.
Quando eles perceberem que podem enfrentar os jornais se trabalharem duro atrás de informação, ninguém vai segurar os blogueiros.
*pedro.doria@grupoestado.com.br





3 comentários ↓
Blogueiros nao sao jornalistas. Nao se deve cobrar esta relevancia ou a obrigacao de investigar destas pessoas que nao vivem disso e muitas vezes nem tem tempo ou possibilidades de correr atras da informacao.
Tudo bem, ele cita o exemplo de que os blogueiros nem mesmo ligam para seus deputados. Mas nao sao os blogueiros que nao ligam ou nao se interessam por politica, sao os brasileiros. Os blogueiros apenas refletem este cenario. Seria o mesmo erro que dizer que Corinthianos nao ligam para seus deputados.
Pdoria já citou outras vezes que lá fora, um blogueiro pode derrumar um politico. Novamente, isso nao depoe contra a blogosfera brazuca. Isso depoe contra o Brasil. Aqui, ninguem derruba ninguem, nem jornal, nem revista, nem blogueiro.
Alem disso, os blogs deixaram de ser coisas de blogueiros faz tempo. Voce tem muitos jornalistas que mantem blogs pessoais. Eles sao blogueiros? Só para citar alguns do meio politico (usado como exemplo pelo Pdoria): Alon Feuerwerker, Ancelmo Gois, Claudio Humberto, Cristina Lôbo, Diego Casagrande, Diogo Mainardi, Fernando Rodrigues, Guilherme Fiuza, Jorge Serrão, Josias de Souza, Lucia Hippólito, Miriam Leitão, Noblat, Olavo de Carvalho, PatrÃcia Campos Mello, Reinaldo Azevedo.
Michel,
Primeiro, prazer em conhecê-lo. Lhe encontrei graças ao Pedro Dória, que o citou no seu blog.
Segundo, bela indicação. O texo do PD é realmente interessante. Mas ele não está disponÃvel somente para assinantes do Estado.
Basta entrar na seção Tecnologia e procurar a coluna do PD.
De qualquer forma, bela indicação. E bela leitura sobre o Campus Party. Retornarei, com certeza.
Abraço!
Oi !
Não tenho a experiência do PD na área jornalistica, nem acompanho tudo com tanta frequencia, mas as afirmações dele não parecem bater muito bem não.
Veja o Noblat e o Moreno, que fazem blogs sobre polÃtica. Acompanhei o blog do Noblat em especial durante a crise do mensalão e com certeza o blog teve um papel muito importante na distribuiçà o de informações a todos.
PD diria que estes não contam, por serem blogs de jornalistas ?
Ok, então vejamos o blog do Serjão, do “Serjão comenta do céu”. Análises, crÃticas, conteúdo polÃtico legal. Será que ele nunca ligou para um deputado ? Não creio…
Não conta, por não sabermos ?
Então veja meu blog, por exemplo. Posto de tudo um pouco, é verdade, inclui área técnica, é verdade, mas entro em contato com os polÃticos sempre que um assunto é do meu interesse. Por exemplo já fiz vários contatos por e-mail com César Maia, prefeito de minha cidade e publiquei no blog o quanto acho fantástica a velocidade de resposta e a importância que ele dá a responder todos os e-mails que recebe.
Antigamente, quando havia algo importante acontecendo e desejava dar uma sugestão, reclamar ou expressar minha opinião, enviava e-mails a todos os deputados. Por que hoje não faço isso ? Simples : Não é coisa simples procurar o e-mail de cada um, um por um, tendo que fazer isso novamente a cada eleição.
13,5% dos brasileiros possuem blogs. Mas a grande maioria destes blogs é sobre tecnologia ou variedades, como o Cava citou acima, espelhando o perfil nacional. Então, deste percentual, qual o percentual de blogs sobre polÃtica ?
Levando isso em consideração, como PD pode afirmar que nenhum blogueiro liga para um deputado, quando ele nem saiba se este percentual estava certo ? Sou blogueiro, ora, eu mando e-mail e sou respondido !
[]’s
Dennes
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