ViuIsso? Por Michel Lent

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Nossa blogosfera é pouco ambiciosa

February 18, 2008 Tags: 2,658 views

Ainda sobre o assunto da relevância do que se produz na blogosfera brasileira hoje em dia, recomendo a leitura de mais um texto do Pedro Dória, a coluna “Navegar Impreciso” publicada hoje no caderno Link do Estadão. Como esta parte do conteúdo é fechada para assinantes tomei a liberdade de fazer um copy+paste no texto da coluna por julgar que ele é bastante relevante.

Nossa blogosfera é pouco ambiciosa
Pedro Doria*

Tem muito blog já no Brasil. Na semana passada, durante a Campus Party, chegou a circular pelos corredores do prédio da Bienal, no Ibirapuera, números fantásticos como este: 13,5% dos brasileiros online têm blogs. Desconhecendo os detalhes da pesquisa é difícil dizer se é certo. Mas a blogosfera brasileira é vasta. O que lhe falta é peso informativo.

Isso é curioso. Outros países têm muitos blogs, como nós. O Irã, a Arábia Saudita, a China, a França, a Inglaterra, os EUA – são países de todo tipo. Em todos, blogs fazem parte do cotidiano informativo dos internautas. Eles são uma fonte de informação imprescindível. Em alguns casos mais importante até do que a imprensa tradicional.

É coisa que se vê tanto nos nichos quanto nos assuntos de interesse geral. Veja-se o caso da comunidade gay iraniana (aquela que o presidente Mahmoud Ahmadinejad disse que não existe). É perigosíssimo ser gay no Irã. Não é comum que homossexuais sejam executados, mas ser preso é uma péssima idéia. É tortura certa. Mas eles se encontram, têm suas festas e a vida continua. Nesse ambiente, blogs são um dos instrumentos que facilitam a comunicação interna na comunidade. Ajudam na vida cotidiana. Informação tem esse valor: é ela que nos guia em nossos cotidianos.

Em grandes ditaduras, blogs são um importante instrumento de informação. Blogueiros, não à toa, são presos no Egito, na Arábia Saudita, na China – no próprio Irã.

Se blogs (ou a própria internet) tivessem surgido nos anos 1960, a nossa ditadura talvez não durasse tanto. Houve o tempo em que o brasileiro médio dava o maior valor para um instrumento assim poderoso de comunicação. Em 1968, quando a censura tomou de assalto as redações, blogs teriam condições de resistir. É fácil impedir que um, dois ou três jornais publiquem um determinado artigo. Jornal tem prédio e gráfica com endereços conhecidos. Mas, com tantos blogs em servidores espalhados pelo mundo, o controle total é impossível.

Os EUA são um grande exemplo de país democrático no qual blogs fazem parte ativa do diálogo nacional. Blogs são tão importantes que um blogueiro como Markos Moulitsas, do dailykos.com, é capaz de organizar um debate entre candidatos a presidente no qual todos consideram importante ir. Políticos sabem que boa parte dos eleitores se informam a respeito das eleições lendo blogs. Moulitsas jamais foi jornalista profissional, jamais passou por uma redação. Mas ele tem opiniões fortes e a habilidade de agregar uma comunidade de leitores e correspondentes. Além disso, ele pega o telefone e liga para um deputado quando quer informação. Moulitsas tem mais que opinião. Ele sabe o que está acontecendo nos corredores da política americana. E conta. Por isso, é lido.

Por que o Brasil não tem seu Markos Moulitsas? Nem todo blog precisa ser sobre política. Sequer precisam ser noticiosos. Blogs podem ser diários pessoais. Podem ser literários. Podem se limitar a um apanhado de opiniões. Mas surpreende que 13,5% dos brasileiros online tenham blogs e ninguém, fora jornalistas, ligue para um deputado e faça uma pergunta.

É particularmente grave que tenhamos uma blogosfera tão pouco ambiciosa. Que, em plena democracia, abra mão de ser tão importante quanto a imprensa tradicional. Talvez isso seja sintoma do desânimo que toma o país. Mas é uma lástima.

Isso vai mudar. Em 2010, teremos uma eleição presidencial aberta. Ninguém sabe quem serão os candidatos e dois ou três deles terão chances reais de se mudar para o Alvorada. Que se espere uma campanha disputada. Não importa onde estejam, os candidatos serão cercados por celulares, câmeras digitais, filmadoras. Tudo o que falarem irá para a rede – e nem tudo virá pelas mãos de gente como nós, profissionais da imprensa.

Quando eles perceberem que podem enfrentar os jornais se trabalharem duro atrás de informação, ninguém vai segurar os blogueiros.

*pedro.doria@grupoestado.com.br