Todo começo da ano a gente diz “esse vai ser o ano da internet”. Sabe o que descobri hoje? O ano da internet não vai chegar nunca.
Por Michel Lent Schwartzman
A compreensão saiu novamente de uma bela conversa. Estava contando para uma futura colega de agência minhas idéias sobre mercado, passado, presente e futuro. Sobre o que achava que seria o caminho, quando ela soltou a pergunta: “mas quando você acha que a internet vai estar finalmente ‘quente’, aqui no Brasil ou no resto do mundo?”.
Fiquei mudo. Titubiei em dizer que já estava quente. Depois pensei que isso era mentira. Depois lembrei de todos os anos passados em que eu dizia “este vai ser finalmente o ano da internet no Brasil” pra então passar o ano e não ter visto o tal “boom” que eu esperava.
Foi assim em 97. Depois em 98 e também não rolou. Daí apostei todas as minhas fichas em 99. Nada. Daí 2000, então veio o crash da Nasdaq e eu achei então que as coisas agora iam demorar. Mercado se recuperando, entrou 2004, 05, 06 e nada da internet “decolar”.
Depois vieram as discussões da fronteira do on e do off. Onde acabava um e onde começava outro e mais adiante o conceito de que a linha estava cada vez mais fina, de que a linha tinha acabado, de que agora não tinha mais diferença.
Foram-se os anos e as agências de propaganda montaram seus departamentos de internet, depois tentaram misturar as equipes, depois separaram de novo, depois montaram empresas especializadas dentro dos grupos e nada da internet “decolar”.
Em paralelo, cada vez mais gente no país e no mundo usando a internet e as novas gerações surgindo sem ter nunca conhecido um mundo diferente, passando de um tipo de mídia para outro sem ter a mais vasta idéia de que, do lado de cá, a gente havia dado nomes para cada pedaço do seu dia. Que chamamos sua vida na internet de “on” e sua TV de “off”, seu celular de “mobile” e sua visita ao supermercado de “PDV” e por aí em diante. Para estas pessoas, é tudo parte de sua vida e, para as gerações mais novas, internet é tão diferente ou tão comum quanto uma folha caindo de uma árvore no outono, tomar um sorvete, ou receber uma foto no celular. Achou estranha a comparação? Pois é, para eles é tudo parte da vida, não tem porque separar nem comparar mesmo.
Pois essas coisas todas passaram pela minha cabeça enquanto a minha amiga seguia na minha frente esperando pela resposta e eu finalmente consegui parar e dizer pra ela.
“Sabe que você acabou de abrir os olhos para uma coisa muito importante: o ano da internet não vai chegar nunca, ela nunca vai ficar ‘quente’, nem aqui, nem em nenhum lugar do mundo”.
E precisei, claro, explicar o que havia acabado de dizer. Para ela e para mim mesmo.
Não teremos um “ano da internet” porque a internet não pode mais ser encarada como algo à parte do que fazemos, como algo separado do todo. Nunca tivemos nem nunca teremos um “ano da internet”, não porque ela não será importante o suficiente, não terá dado certo ou o mercado não terá evoluído. Não teremos um “ano da internet” porque a natureza inerente da internet é ser parte integrante das nossas vidas, do nosso mundo e da nossa comunicação. Porque quanto mais a internet se torna “quente”, mas ela faz parte das nossas vidas e mais difícil fica de se fazer a separação de onde começa uma coisa e acaba a outra. E fica claro que, tentar separar isso em on, off, ou qualquer outra denominação, simplesmente não faz sentido nenhum.
Entendi finalmente que o ano da internet não vai chegar nunca, porque considerar que teremos “um ano da internet” é considerar que ela é alguma coisa separada, encapsulada e isso é ir diretamente contra tudo aquilo que a internet é e se tornou: parte do nosso dia-a-dia, da nossa comunicação, das nossas vidas.





12 comentários ↓
Michel, gostei do visú! Esse branco e laranja é interessante demais… e vamos ao comment… eu imagino estar no espaço olhando pra Terra… e nessa idealização vejo as camadas da atmosfera… e ali no meio tem um treco emaranhado… abraçando o planeta… começamos na convergência e estamos indo (talvez já estejamos…) para a ’submergência’…
Bom domingo!
fala michel!
é isso mesmo esta história de quente… talvez seja bom para ganhar uma “bela” grana… o tal do mercado e afins…
eu curto o meu banhinho morno! todo dia!! faz parte!!!
bjs
É como um dia para nossos pais a TV foi novidade e para nós era absolutamente normal. Quem viu o disco de vinyl ficou abobalhado com o videolaser. Meus filhos, quando eu os tiver, não saberão nem o que será um dvd gravável, pra que? existe o pen drive, o celular, qualquer coisa que se conecte ao computador para transportar arquivos. O Macbook Air nem drive de cd tem. Por que será, ein?… E por aí vai.
A grande sacada é perceber que os mais novos tratam a internet naturalmente como sendo parte do processo todo e não separadamente. Este é o erro que nós que acompanhamos seu crescimento, cometemos.
Excelente percepção, Michel!
Abraço!
Ótimo papo filosófico Michel!
Ótimo artigo Michel! Parábens mais uma vez!
esse post me lembrou uma frase q o Luli (Radfahrer) já disse há algum tempo: “o sonho de toda tecnologia é desaparecer”. Ou seja, tornar-se transparente ao usuário. è uma frase genérica, mas resume bem essa sua conclusão. Minha filha, que nasceu na geração da internet, não tem a mínima idéia do q é resolução de monitor, apenas vê fotos em dispositivos de diversos tamanhos (do celular à TV) sem se preocupar com o q tem por trás.
É isso ai ML
Como ja dizia o saldoso.
O meio é importante por causa da mensagem.
Michel, acho que sao coisas diferentes. O fato do ser humano nao ter que optar entre TV e Internet, ou Radio e Revista é uma coisa. Outra é dizer que o meio ja tem boa penetracao e ja faz parte da vida destas pessoas.
A mesma coisa vale quando olhamos para o nosso mercado. Uma coisa é defender que as ideias venham antes da escolha dos meios, outra é olhar para o meio internet e falar sobre sua penetracao, sua importancia no bolo e seu amadurecimento profissional e comercial.
Acho que tem muito a ver com o desejo de cada um. Os que desejavam e acreditavam que a Web ia matar a TV vao precisar esperar sentados o tal ano da internet.
Agora que o meio esta ganhando forca (em penetracao e grana), é importante comemorar sim.
Comemorar a forca da web no Brasil nao quer dizer defender ou desejar a morte dos outros meios. Muito menos achar que as ideias ou conceitos devem ser exclusivos de um meio.
Cava, acho que meu ponto afinal era dizer que não vamos ter um ‘ano da internet’ pois já não dá mais pra separar a internet do resto das nossas vidas. e que pensar em um ‘ano da internet’ é, na realidade, olhar para a internet de forma equivocada: como algo separado do todo em que vivemos…
Mas, claro, é indispensável comemorar cada passinho que a internet dá no seu caminho de evolução.
Como sempre, preciso. Essa nova realidade de pessoas que encaram a rede com uma naturalidade surpreendente e que desconhecem aquela velha web dos modens com barulinho, site da nasa, fundos pretos com gifs de fogo é algo que tem me assustado também.
A medida que me dou conta disso, vou percebendo que aqueles dinossauros da velha economia, com que os profissionais de internet rivalizavam, cada vez mais somos nós mesmos. Pela dificuldade que encontramos em nos atualizar, pela ebulição de novas tecnologias, pela falta de respostas na ponta da lingua, e principalmente, pela internet estar se tornando algo não tão moderno como antes, mas algo comum…. banal.
Nessa nova web eu não sei mais onde está a vanguarda, porque ela se move mais rápido do que eu posso acompanhar, o que sobra pra nós profissionais é ir traçando nossos próprios caminhos, porque quem desbrava sua própria trilha está sempre na frente dela.
Será que nunca teremos o “ano da internet” porque se ele um dia existir, teremos o fim da Web?
Explicando… Quando tivemos um período em que algum meio foi o grande destaque, a vedete de todas as comunicações, etc, logo veio outra e a superou.
Como a Internet muda a cada dia, concluo que nada poderá superá-la. Portanto não teremos como acabar com ela também e criar algo totalmente revolucionário como a própria Internet é.
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